quarta-feira, 20 de julho de 2011

Frente a Medusa

Queria silêncio, mas o mundo fazia-se controverso ao meu desejo.
            Retirei-me ao refúgio de sempre. Como esperava, a biblioteca estava lotada de silencio, a salvo sob o folhear de livros que a algum tempo me agradava tanto, mas que agora era uma tortura a meus sentidos.
            Sentei-me ao fundo, no canto mais escuro, longe dos poucos ali presentes. Minha alma rogava por descanso, afinal nada mais me anestesiava.
            Por mais que tentasse evitar, meus pensamentos repousavam sobre o fato de ainda sofrer, de que minha Amélia ainda sentia dores.
            Seu estado se agravou repentinamente, e agora suas dores eram constantes de um modo que as doses de seus remédios tiveram que ser triplicados.
            Tentei me distrair, mas os poemas, crônicas, lendas e contos de fadas que me cercavam não tinham poder suficiente para tal feito. Tentei então vagar, simplesmente deixar meus pensamentos se cansarem de ir e vir em minha cabeça, mas algo chamou minha atenção.
            Ela entrou silenciosamente, por traz de seus óculos escuros me fitou, ajeitou a franja de seus cabelos negros e foi ao balcão.
            Por mais que tentasse, minha atenção e meus pensamentos estavam sobre ela. Seus lábios vermelhos contrastavam com sua pele pálida e seus grandes óculos escuros, ao mesmo tempo em que combinava com seus longos cabelos lisos e negros, escondia um mistério impiedoso.
            Para alívio de meus pensamentos e desespero de meu ser, a bela jovem escolheu, dentre tantos lugares, a mesa a minha frente.
            Não pude disfarçar meu olhar, o que fez seus lábios se contraírem em um sorriso tentador.
            A bibliotecária aparece para recolher alguns exemplares da mesa ao lado, e aproveita para me lançar um olhar de desaprovação.
            A bela jovem sentada a minha frente eleva as suas mãos e, ao retirar seus óculos, revela, graciosamente, seus olhos misteriosos.
            Acabo me afogando no mar azul-esverdeado. Senti como se fosse petrificado por ter olhado nos lindos olhos de Medusa.
            Pressinto o perigo, mas estou paralisado. Apenas observo enquanto ela se levanta de sua cadeira e se aproxima.
Com um esforço estonteante, consigo me virar de modo a ficar frente á ela.
Sua beleza era incomparável, seus olhos me seguravam enquanto era envolvido por seu aroma adocicado de veneno, me deixando imobilizado.
Seu rosto se aproximou do meu. Senti sua respiração leve e calma, enquanto seus lábios me deram um beijo mortal.
A bela Medusa arrumou seus óculos, escondendo seus terríveis olhos embriagantes e, com os mesmos lábios que me envenenou, soltou um sorriso de vitória. Ela virou-se e foi,levando consigo meus pensamentos, minhas preocupações e meu ser.

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