quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Auto desprezo


Manhã de quinta, o sol começa a derramar seu brilho sobre a cidade. A claridade que afasta o breu noturno revela a solidão e a tristeza, o desprezo e a indignação.
            Ela estava sentada na calçada, do lado de um motel de quinta, no subúrbio da cidade. Pela primeira vez, ela odiou o sol nascente. Ele revelava ao mundo o seu estado deplorável.
            Seus cabelos estavam espessos de sujeira e suas roupas estavam esfarrapadas. O único indício de vaidade que lhe restava era um batom vermelho em seus lábios, que por sinal, era muito forte e não ajuda a melhorar a sua aparência.
            Ela pegou sua pequena bolsa, retirou um maço de cigarros e riu, sarcasticamente, ao constatar que só tinha mais um cigarro. Com um fósforo, acendeu seu ultimo pertence, o olhou, e começou a tragar sua ultima regalia.
            Em um impulso de raiva e desprezo, ela atirou sua bolsa no asfalto da avenida que se estendia a sua frente. Ela tinha consciência de seu estado, e sabia que a vida a venceu. Antes, era uma moça de uma família simples, agora uma indigente, uma andarilha que sentia ódio por ser quem era e por ter se entregado sem ter ao menos lutado.
            Seu cigarro acabou, o sol já estava alto e a cidade estava ativa.
            Ela se levantou com alguma dificuldade pela quantidade de tempo que passou sentada na calçada fria, arrumou sua saia até os joelhos, foi até a avenida e pegou sua bolsa.
            Um carro quase a atropela. Ela xinga o motorista, pragueja o sol, a cidade e a ela mesma, enquanto vai em busca de um novo lugar para ficar.

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